Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A Estante

As Minhas Estúpidas Intenções (2023)

15
Abr24

Cópia de Design sem nome.png

Bernardo Zannoni nem 30 anos tem ainda e já escreveu um livro premiado, por sinal, o seu primeiro. “As Minhas Estúpidas Intenções” coloca-nos num mundo onde os animais falam e têm profissões. E têm também vidas duras. Como a do próprio Archy, protagonista do livro, um macho de fuinha, coxo. O pai deixou-se matar pelo Homem e a mãe, solitária, vai-se esforçando por cuidar dos filhos, dando-lhes alguma comida e nenhum amor. A mãe vai desprezando cada vez mais os filhos, vendo apenas utilidade no filho mais forte.

Archy acaba por ser vendido como escravo, a troco de uma galinha e meia. Torna-se propriedade de Solomon, um raposo usuário, cruel e caprichoso que tem um grande cão preto como guarda-costas, sempre pronto a travar qualquer comportamento que não agrade ao amo.

À medida que Archy aprende o ofício e sobretudo a lidar com o velho, este, confrontado com a descoberta de Deus e sobretudo com a ideia da morte, começa a ensiná-lo a ler a Bíblia e dar-lhe liberdade para explorar o bosque e fazer alguns negócios em seu nome.

Archy começa a ler e a escrever, para Solomon e depois para si e começa a desejar voltar atrás, a uma vida mais simples. Mas ninguém consegue desaprender aquilo que aprendeu, ainda menos quando o que aprendeu o torna completamente diferente de todos os que o rodeiam.

Um abolsuto e genial OVNI no panorama atual da literatura.

Crooks (2024-?)

10
Abr24

Cópia de Design sem nome (3).png

Charly Markovic (Frederick Lau) deixou para trás uma vida de crime e de prisão como arrombador de cofres e tem agora, em Berlim, um respeitável negócio como chaveiro. Vive com a mulher e o filho desta. Mas o passado encontra-o e convenceu-o, a troco de dinheiro e ameaças, a fazer um último trabalho. Supostamente vai roubar um par de milhões euros. Afinal, em causa está uma moeda, valiosa e mediática, acabada de ser roubada. E quem a roubou foi uma poderosa família criminosa. Se roubar-lhes o que quer que fosse já acarretaria perigo de vida, o que dizer de, na operação de subtrair a moeda do cofre, o irmão mais novo do chefe da família ficasse no chão, morto?

Charly, abandonado por todos, desata a fugir, por várias cidades europeias com a estranha companhia de Jacob (Christoph F. Krutzler). Jacob, filho de uma prostituta e ainda não assumido por Grandalhão, chefe maior do crime em Viena, é um faz tudo da família. Uma da sua missão é ir à Alemanha recuperar a moeda, acabando por casar interesses com Charly, contra tudo e contra todos.

Cheia de ritmo, eis uma série surpreendente.

O enviado de Praga (1960)

09
Abr24

Cópia de Design sem nome (2).png

No fim dos anos 50, em Inglaterra, Nicholas Whistler e a sua família vivem do passado. Nicholas preocupa-se mais com guiar o seu MG, mesmo que não tenha dinheiro sequer para pagar a renda, do que com a namorada ou com o trabalho, na fábrica que o pai fundou, agora com nova gerência e muito menos sucesso. A mãe vive num mundo de fantasia, achando que o filho vai dirigir a empresa mais dia menos dia e que o seu irmão, ainda na Checoslováquia, vai deixar a sua pretensa herança ao filho.

É com a desculpa dessa mesma herança, a chegar, que Nicholas é enganado. Chamado a uma sociedade de advogados, recebe duzentas libras de adiantamento. Mas, o tio não morreu e aquela soma, que Nicholas não demora a gastar são uma dívida, que deve pagar com uma ida à Praga da sua infância, para recolher informações. Sem saber muito bem como torna-se numa peça de destaque numa história internacional, em plena Guerra Fria.

 

Royal City - Compendium One (2023)

08
Abr24

Cópia de Design sem nome (1).png

Jeff Lemire, conhecido pelo seu traço único e pela sensibilidade com que conta histórias, volta a uma saga familiar que faz lembrar várias vezes Essex Coubty, um dos seus muitos sucessos. Em Royal City acompanhamos a reunião de uma família à volta do pai, acabado de cair para o lado e em coma, numa cama de hospital.

É uma oportunidade para Pat regressar a casa, ele que se tornou escritor, mas está a passar por um bloqueio e por uma crise no casamento com uma estrela de cinema. Em Royal City, cidade fabril, onde nada se passa, ficaram o irmão padre, para orgulho da mãe; a irmã, agente imobiliária à beira de um grande negócio e o irmão mais novo, mais interessado em álcool e drogas do que no resto da vida.

Mas há um irmão mais novo, morto aos 14 anos, que continua a acompanhar toda a família. Tommy, solitário e depressivo, vivia nas suas escritas e na música que não parava de ouvir e afogou-se muitos anos antes. O coma do pai serve para se reavivar as memórias do que aconteceu, com saltos de quase trinta anos ao passado e à vida de então. Mas Tommy está ainda no presente de cada um. Todos o continuam a ver no dia a dia, em diferentes versões. A irmã vê a criança da qual tomava conta, Pat vê Tommy como era quando morreu e Richie (o mais novo vivo) vê o irmão como seria hoje.

Com surpresas atuais, este é o relato de uma família para sempre marcada por uma grande perda, na altura em que possivelmente enfrenta outra.  

Supersex (2024)

05
Abr24

Cópia de Design sem nome (5).png

Rocco Tano, mais conhecido como Rocco Siffredi é um dos mais lendários atores pornos de sempre, apenas superado em popularidade por John Holmes e Ron Jeremy. Esteve no ativo entre o fim dos anos 80 e início dos anos 2000 e vive em Budapeste com a mulher até hoje, dedicando-se a produzir filmes.

Supersex, agora na Netflix, conta a história do ator italiano, tendo o cuidado de declarar a cada episódio que a série é apenas vagamente inspirada na vida de Rocco. Aqui, vemos a infância de Rocco, numa família pobre, num bairro perigoso, dominado por gangues que deixaram um dos seus irmãos com problemas mentais. Aos olhos do pequeno Rocco, Tommaso, acolhido pela família e visto como irmão mais velho, é o seu grande herói. É Tomma que o acompanha nos anos seguintes, em parelha com Lucia, uma jovem bonita que faz disparar a imaginação de todos no bairro e continua na cabeça de Rocco durante grande parte da vida adulta.

Vemos depois a caminhada triunfante de Rocco rumo ao sucesso, enquanto vemos a decadência de Tommaso, já em Paris, onde gere um restaurante e pequenas atividades delinquentes quanto Lucia se prostitui. Indo e vindo do seio do casal, Rocco transforma-se numa estrela e conhece Rosa, com quem está casado até hoje, também na vida real.

Mais do que os bastidores do mundo da pornografia este é o retrato sombrio dos fantasmas do passado, que podem acompanhar a vida adulta de todos nós.

Vemo-nos em agosto (2024)

04
Abr24

Cópia de Design sem nome (2).png

Há cerca de um mês, dez anos depois da sua morte, aos 87 anos, foi editado um novo e derradeiro livro de Gabriel García Márquez. Vemo-nos em agosto foi escrito quando o autor colombiano já apresentava sinais de demência e como nos é explicado no início do volume da D. Quixote, o livro não era considerado pelo escritor como estando â altura da sua obra. Mas um livro menos bom de Gabo é sempre melhor do que muitos que por aí andam.

Uma mulher casada há quase 30 anos regressa todos os anos, a 16 de agosto, a uma ilha onde a mãe está sepultada. Fica no mesmo hotel, modesto e leva sempre as mesmas flores, gladíolos. Com o passar dos anos, a sua “fuga” anual, que faz questão de ser solitária, serve como forma de fugir da sua realidade de conhecer um novo amante. Uma pequena delícia.

Portugal (2010)

25
Mar24

Cópia de Design sem nome (2).png

Em Portugal, Cyril Pedrosa conta uma história em parte autobiográfica. Afinal, Simon, personagem é, como o seu desenhador descendente de portugueses e autor de banda desenhada. Simon, após ter lançado um primeiro álbum de sucesso, está sem inspiração para o segundo, o que afeta o resto da sua vida, a começar pela namorada de quem se afasta cada vez mais. É o Portugal dos seus antepassados que lhe estende a mão. Primeiro, é convidado para um festival de banda desenhada, depois estabelece-se temporariamente na pequena terra de onde o avô saiu, para desenhar e sobretudo para conhecer as suas raízes. Portugal é uma delícia narrativa, mas sobretudo gráfica, com um traço elegante, que muda consoante a etapa da história, com a exploração soberba das cores.

Os senhores do crime (2024)

24
Mar24

Cópia de Design sem nome.png

Edward (Theo James) é um homem recto. No início da série vemo-lo como oficial dos chamados “boinas azuis”. Vê-se que tem o respeito dos seus soldados e vê-se que é justo e ponderado. Mas chega um carro a dar-lhe as notícias. O pai, está a morrer. Percebemos que o capitão vem das melhores famílias inglesas e que está prestes a tornar-se duque, mesmo com a existência de um irmão mais velho, idiota inútil.

De luto, percebe que o irmão, Freddy (Daniel Ings), contava ser o herdeiro e com a pretensa fortuna pagar uma dívida de 8 milhões de libras a uma organização criminosa. Para pagar a dívida do irmão, Edward considera vender a histórica propriedade, agora sua. Logo aparece em cena o americano Stanley (Giancarlo Esposito), vestido de homem rico e sofisticado, com poder mais do que suficiente para comprar a propriedade, mas, cedo percebemos que ele próprio é um criminoso de monta. E, aparece, sobretudo, Susie Glass (Kaya Scodelario), bonita, bem vestida e bem-falante, que explica ao aristocrata que o seu pai tinha com ela um negócio. Ela fazia crescer erva debaixo da propriedade e o duque recebia cerca de 5 milhões ao ano, para não querer saber muito.

E é assim que Edwards começa a lidar com Susie, Stanley e muitos outros personagens criminosos, melhor estilo de Guy Ritchie, realizador do filme The Gentleman, de 2019, que dá origem a esta série, igualmente criada por ele.

The Sad Ghost Club (2021)

20
Mar24

Cópia de Design sem nome.png

Nas primeiras vinhetas vimos uma figura. Parece ser um fantasma adolescente. Tem um lençol, problemas em dormir e está preocupado em terminar um trabalho para a escola. Percebemos que os pais vão de fim de semana e que ele fica em casa, com o gato. Vai estudar e pouco mais. Aparece o convite ara a festa, a que quer ir, mas tem muitas dúvidas. Vimos que é tímido e que tem ansiedade social. Muitas páginas depois, vimo-lo na festa. Os colegas não têm lençóis. Percebemos a metáfora. O protagonista lua contra si próprio e percebe que há outros assim. Com um traço juvenil e uma narrativa aparentemente simples, a autora, que foi vivendo algo muito semelhante, The Sad Ghost Club é um murro no estômago e uma chamada de atenção para todos os “fantasmas” que vivem entre nós e precisam de ajuda.

Quentin por Tarantino (2024)

19
Mar24

Cópia de Design sem nome.png

Amazing Ameziane (coautor de uma das versões em BD de 1984) ofereceu um grande presente ao mundo. Quentin por Tarantino é um livro colossal, obrigatório para qualquer admirador de Tarantino e para qualquer admirador de cinema. Aqui, Tarantino fala em voz própria, num longo e bonito volume com vários estilos de banda desenhada, ilustração e até texto corrido (com desenhos, claro). Conhecemos a sua infância, a relação com a mãe e com o padrasto e o percurso até triunfar no cinema.

Depois, temos acesso ao que levou à criação de obras-primas como Kill Bill (temos um vislumbre do que seriam os volumes seguintes, já que a ideia seria haver um Kill Bill a cada dez anos) ou Pulp Fiction. Somos brindados com histórias dos bastidores, do processo de seleção dos atores e com milhentos pormenores que mostram Tarantino como um profundo conhecedor do cinema.

Há ainda espaço para abordar polémicas, com toda a transparência e para perceber como QT viveu movimentos sociais como o Mee Too (Harvey Weinstein foi produtor de vários filmes de Tarantino) ou o Black Lives Matter (Tarantino protestou contra a polícia mesmo sendo muitas vezes acusado de ter falas e personagens racistas nos seus filmes).

Quentin por Tarantino é um livro obrigatório. Obrigado, Amazing Ameziane.