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A Estante

O País dos Outros (2021)

30
Out23

Design sem nome (3).pngEstreei-me na obra da aclamada marroquina Leila Slimani com O País dos Outros. E que bela estreia. No fim da II Guerra Mundial, a francesa Mathilde, desejosa de deixar a sua vida rotineira apaixona-se pelo marroquino Amine, a combater pelo exército francês. Casa-se e aos vinte anos acompanha o marido até à sua Marrocos natal. Mas o país africano, nos anos 40, não era o que Mathilde esperava e desejava. Na província marroquina, Amine divide-se entre a dedicação quase obsessiva à quinta que o pai lhe deixou e da qual é difícil tirar frutos e um estilo de vida profundamente conservador, no qual o homem pensa e decide sozinho, mesmo que a mulher dê mostras de perspicácia. Mathilde é maltratada ou ignorada e tudo o que faz parece envergonhar Amine pressionado por uma sociedade machista e fechada. Sem meios nem vontade própria, a francesa tenta criar os filhos o melhor que sabe e sobreviver num mundo de solidão.

Stoner (1965)

27
Out23

Design sem nome (2).pngStoner, de John Williams, editado pela primeira vez em 1965 é um grande romance americano que tem passou mais ou menos despercebido por muitos anos, tanto que Williams foi muito mais celebrado (merecidamente) por Augustus, de 1972. Há cerca de vinte anos, o mundo despertou para Stoner, que na verdade parece contar a banal história de um banal académico.

O Stoner do livro é William Stoner, filho de camponeses que pensava que o seu destino seria passar de camponês a meio tempo a camponês a tempo inteiro após as aulas. Mas o pai, mesmo calado, tinha outros planos e com sacrifício mandou o filho para a Universidade do Missouri. Queria que o filho tirasse um curso e aprendesse novas formas de trabalhar a terra, algo que era mais difícil a cada ano. Stoner fez a vontade ao pai, apaixonando-se pela Academia ao mesmo tempo que trabalhava para pagar o seu alojamento e alimentação.

Stoner começou de facto pela agronomia, mas o encontro com uma cadeira obrigatória de literatura inglesa fê-lo mudar de rumo. Mudou-se para as letras, algo que os pais só descobriram após a cerimónia de graduação. Stoner não mais voltaria à terra e continuaria no meio académico, decisão aceite com surpresa pelos pais, mas aceite. Mal visto por muitos por não se alistar para guerrear na Primeira Guerra Mundial e ignorado pela maior parte daqueles com quem se cruzou, Stoner foi ficando na Universidade, mesmo que sem grande avanço na carreira. No campo amoroso, apaixona-se e vem a casar com Edith, uma jovem algo misteriosa e sobretudo complexa que não lhe proporciona a felicidade que esperava, fazendo com que Stoner se aproxime mais do trabalho e de uma jovem colega.

Stoner parece ser daqueles livros sobre quase nada que se revelam ser sobre quase tudo: vida, morte, amor, propósito e muito mais. Uma melancólica delicia.

O Cavaleiro do Unicórnio (2022)

26
Out23

Design sem nome.pngO Cavaleiro do Unicórnio, de Stéphane Piatzszek e Guillermo G. Escalada é uma obra triunfante na parte das ilustrações, em especial aquelas que mostram a ação das batalhas. No que toca à história, é confusa e porventura sem grande sentido ou profundidade, o que no geral transforma o livro numa grande desilusão. Na França de 1346 à beira da Guerra dos 100 Anos, um cavaleiro da Ordem dos Hospitaleiros, Juan de la Heredia, despoja-se do seu cavalo para o ceder ao rei e num momento de êxtase despe a sua armadura, lutando bravamente. É a visão de um unicórnio que a salva da morte certa e a perseguição desse ser mítico que o leva a uma jornada de loucura. Vale pelos desenhos superiores de Guillermo González Escalada.

Mau Género (2023)

25
Out23

Design sem nome (1).pngEis uma das melhores bandas desenhadas do ano. Mau Género, de Chloé Cruchaudet, é baseada na realidade e conta a história de um casal, Paul e Louise que se casa pouco antes dele partir para a Primeira Guerra Mundial. Vendo de perto os horrores das trincheiras e dos colegas mortos, Paul corta o próprio dedo e passa os meses seguintes na enfermaria, longe da frente de batalha. Quando está na hora de regressar à guerra, deserta. Cabe a Louise esconde-lo e sustenta-lo, mas Paul sente-se preso e oprimido e um dia, quase por acaso, veste um vestido da mulher para ir à rua. Surpreendido por ninguém perceber o embuste tem então a ideia de se vestir mais vezes de mulher para poder sair do seu esconderijo. Com a ajuda de Louise, torna-se numa figura cada vez mais feminina e quando o disfarce deixa de ser necessário não é fácil a Paul voltar para uma vida que já não conhece. Um tremendo triunfo visual e narrativo.

Casa de Pineapple Street (2023)

20
Out23

Design sem nome.pngA Casa de Pineapple Street de Jenny Jackson conta a história dos dias de uma família muitíssimo rica de Nova Iorque, com destaque para três mulheres: Sasha, Darley e Georgiana. Sasha não é da família nem se sente bem-vinda. Casou com Cord, filho dos Stockton (Tilda, que se mantem em forma a jogar ténis e tem um guarda-roupas irrepreensível e Chip, investidor do setor imobiliário) e é vista como uma caça fortunas apesar do seu amor verdadeiro e do esforço que faz para fazer parte do “clube”. Darley é a filha mais velha, dedicada a criar os dois filhos com Malcolm, bem-sucedido. Darley deixou o seu também bem-sucedido emprego e abdicou da fortuna da família para viver em paz e amor. E depois há Georgiana, solteira e idealista que se envolve com o colega de trabalho errado. Com uma mordaz critica social e muito humor até nos momentos menos risíveis, a estreia de Jenny Jackson promete muito.

Cuba Libre (2022)

19
Out23

Design sem nome.pngCubra Libre continua a contar a história de evolução da ficção nacional, em termos de qualidade técnica, qualidade de narrativas e de representação. Desta vez, debruça-se sobre a história verídica de Annie (Beatriz Godinho), filha do diretor da PIDE e criada num contexto de privilégio que acaba por abraçar a causa comunista em Cuba e apaixonar-se por…Che Guevara. Rebelde desde o nascimento, Annie, jovem bonita e culta, sempre quis pensar pela sua cabeça, entrando em conflito aberto com a mãe e tendo sempre o amor incondicional e permissivo do pai, rema sempre contra a maré, tentando escapar ao tédio da Lisboa dos anos 50 e 60, que pouca emoção lhe traz. Quando conhece um diplomata suíço, vê a sua oportunidade de aventura e depois de largos de meses de tédio, consegue o quer, quando o marido é colocado em Havana, assistindo à crise dos misseis de Cuba in loco. Annie Silva Pais entregou-se então à revolução.

Turning Japanese (2023)

18
Out23

Design sem nome (2).pngGosto bastante de histórias autobiográficas que incluem a adaptação a novos países porque sendo histórias comuns não deixam de ser pequenas epopeias ou páginas heroicas pessoais. Normalmente, trata-se da adoração de emigrantes a países desconhecidos, como acontece em Welcome to The New World ou até a preparação de antecipação da viagem, como em When Star Are Shattered.

Em Turning Japanese, temos algo um pouco mais simples, como a busca pelas origens. MariNaomi descreve o seu percurso entre os EUA, onde nasceu e cresceu e o Japão dos seus antepassados, entre os quais a mãe que sempre quis falar com ela em inglês. À medida que envelhece, a autora e protagonista procura saber mais sobre o Japão e quer aprender a língua, mudando-se para o país e tentando tornar-se, aos poucos, aquilo que já é, japonesa.

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