Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A Estante

Elise e os Novos Partisans (2023)

17
Out23

Design sem nome (1).pngVista tanta vezes como uma arte menor, a banda desenhada tem a vantagem de simplificar mensagens ou contextos difíceis, ilustrando-os e resumindo-os. É essa fórmula que segue “Elise e os novos partisans” de Dominique Grangé e Tardi, que tem edição portuguesa da Ala dos Livros, com data de saída de maio deste ano.

O livro debruça-se sobre a Paris dos anos 60 e 70, com a independência da Argélia como pano de fundo. Conhecemos a violência cega da polícia contra os emigrantes argelinos, vindos dos subúrbios (algum nunca de lá tinham saído) para protestar e damos um salto de alguns anos para conhecer Elise, que no liceu, em Lyon, fora desperta por uma professora para a questão da autodeterminação dos povos e para o direito da Argélia existir por si. Elise começa a documentar-se sobre colonização, a escravatura, a luta de classes ou o marxismo e acaba por continuar a sua vida em Paris.

Nos anos antes do famoso maio de 68, Elise é uma cantora de algum sucesso, abandonando a carreira para se juntar à luta contra a exploração dos trabalhadores, a injustiça social e o racismo. O percurso único de Elise mostra-nos a França de então, e muitas das convulsões que são comuns aos dias de hoje.

Fome (2023)

16
Out23

Design sem nome.pngVer Fome, no Netflix, permitiu-me ter uma das primeiras experiências com o cinema tailandês, o que é sempre interessante. Aqui, seguimos a vida de Paul, um chef (Nopachai Chaiyanam), autoritário, perfecionista e figura de culto, que gere um restaurante de topo, no topo de um arranha céus e faz eventos privados para a nata da sociedade local. Bem mais pobre e menos sofisticada é Aoy (Chutimon Chuengcharoensukying) que trabalha no modesto restaurante do pai, manuseado com mestria um wok para fazer pratos populares. Quando um membro da equipa de Paul a aborda, Aoy não resiste a tentar a sorte no mundo da alta cozinha, deixando a família e tudo o que conhece para trás, tentando aprender e superar o mestre.

Fome não tem o visual cru que seria de esperar nem uma história tão dura como poderia fazer sentido mas a sua abordagem "fácil" e "comercial" funciona e sabe bem. 

A Viagem (2023)

10
Out23

Design sem nome.pngNão conhecia o trabalho da designer e ilustradora Agustina Guerrero, mas felizmente descobri este A Viagem, um relato autobiográfico de uma viagem ao Japão. Começo pela edição portuguesa, da D. Quixote, num belo volume de capa dura, vermelho e com uma textura e aspetos premium. O que não deixa de contrastar com o traço algo naïve e até infantil das vinhetas de Agustina. Mas funciona. Muito bem.

A viagem ao Japão era muito antecipada há meses, mas lá chegada, a nossa protagonista sente jet-leg e sobretudo sente a companhia da ansiedade, amiga de longa data. Lutando contra si e contra a falta de sono e tranquilidade, tenta aproveitar os aspetos práticos e espirituais de estar num destino de sonho, para si. Felizmente, conta com a ajuda da amiga, sempre entusiasta e bem-disposta e pronto a apoia-la.

Oppenheimer (2023)

09
Out23

Design sem nome.png

Oppenheimer é a mais recente obra prima de Christopher Nolan, génio cinematográfico, responsável por Dunkirk, Interstellar, O Cavaleiro das Trevas Ressurge, A Origem ou O Terceiro Passo. O título não deixa espaço para dívudas e refere-se a Julius Robert Oppenheimer, para sempre conhecido como “pai da bomba atómica”. Com efeito, acompanhamos os trabalhos em Los Alamos, cidade construída para servir de base a cientistas de todo o mundo em busca, no Novo México, de criar uma bomba antes que os “outros” o conseguissem.

Mas o filme não glorifica nem o homem, nem a bomba. Acompanhamos, ao mesmo tempo, várias fases da vida do físico. Com 22 anos, vemo-lo em Camdridge, onde parece não encaixar, acabando por acabar os estudos na Alemanha, antes de regressar aos EUA. Já depois de quase deixar a sua simpatia pelo comunismo e por uma namorada militante, Oppenheimer, homem mais maduro e casado é escolhido para liderar o celebre Projeto Manhattan. A bomba fica pronta já depois da rendição alemã e, como se sabe, acaba por ser usada no Japão, o último grande resistente.

Mortificado pela sua criação, o cientista acaba, eventualmente, por se render e viver da sua fama, que lhe granjeia respeito e cargos de respeito onde mantém as suas posições pouco populares de não mais pesquisar e criar bombas. E são as suas posições que fazem com que cheguemos a outro tempo da sua vida, um no qual é ouvido para determinar até que ponto já não era comunista. O presidente da Comissão de Energia Atômica dos Estados Unidos, guardando rancor contra si, tenta espezinhar a influencia política de Oppenheimer submetendo-o a duros e longos interrogatórios, que o humilham e o fazem ver vários a trai-lo.

Oppenheimer é provavelmente o filme da vida de Cillian Murphy, o que não é dizer pouco, tendo em conta a sua longa carreira, cheias de fabulosos personagens, de Tom Shelby a Jonathan Crane (vilão de Batman Begins), passando por Kitten em Breakfast on Pluto. Fazem.lhe boa companhia Robert Downey Jr. como seu inimigo, Lewis Strauss. Mas, Oppenheimer é também uma parada de estrelas que inclui Emily Blunt, Matt Damon, Florence Pugh, Josh Hartnett, Casey Affleck, Matt Damon, Kenneth Branagh e muitos outros. Até Rami Malek, vencedor do Oscar de Melhor Ator há um par de anos, aparece por ali, para poucas cenas.

Um triunfo.

A Armadura de Luz (2023)

03
Out23

Design sem nome.pngCada regresso de Ken Follett a Kingsbridge é uma alegria para milhões de pessoas no mundo. Follett mostrou-nos a cidade inglesa no final dos anos 80 com Os Pilares da Terra, por cá editado em dois volumes. Nele, Tom, humilde, mas determinado pedreiro persegue o sonho de construir uma grandiosa catedral na Inglaterra do Séc. XII. Em 2007, Follett lançou mais dois volumes. Um Mundo Sem Fim leva-nos a Kingsbridge mais de 150 depois da ação do livro anterior e mostra-nos como quatro crianças (descendentes de personagens do primeiro livro) assistem a um assassinato e decidem fazer um pacto de silêncio.

Em 2017, saiu Uma Coluna de Fogo, passada em 1558. Aqui, Ned regressa a Kingsbridge para encontrar uma cidade dividida pela religião. São os tempos da subida de Isabel Tudor ao trono, com a sombra de Maria, sua prima e rainha da Escócia. Em 2020, saiu Kingsbridge: O Amanhecer De Uma Nova Era. Curiosamente, este não continua os volumes anteriores, sendo antes uma prequela d´Os Pilares da Terra, situado no final da Idade das Trevas. Inglaterra é atacada por galeses e vinkings em duas frentes enquanto que três personagens se destacam: um construtor de barcos que fica sem sustento após um ataque viking; uma nobre da Normandia que se casa e tem também que abandonar tudo o que conhece e um monge que sonha transformar a sua abadia em algo bem maior.

Chegamos agora ao quinto volume das visitas de Ken Follett, de regresso a Kingsbridge, agora em A Armadura de Luz e em 1792. Em França há ecos de revolução e Napoleão sobre ao poder. Em Inglaterra, vai chegando o progresso, fazendo com que muitos trabalhadores fabris deixem de fazer falta e de ter sustento. Como sempre, Follett conta o quadro histórico geral ao mesmo tempo que nos faz centrar em personagens profundas. No caso, Amos, que pensaria um dia herdar um negócio de sucesso, mas quando o pai morre demasiado cedo herda apenas dívidas ou Sal, camponesa e fiadora que se vê viúva e sem o filho, requisitado aos 6 anos para trabalhar para uma família nobre. Como sempre, uma história bem contada, que confirma, pela milésima vez, que Follett é um mestre.

Pág. 2/2