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A Estante

A Estante

24 de Novembro, 2025

A Batalha dos Samurais

Série, 2025

Francisco Chaveiro Reis

A Batalha dos Samurais, recente no catálogo Netflix, parece ser uma versão de época (1872) de Squid Game. Numa era de pobreza e cólera num Japão ocidentalizado que vê os samurais como sinal de um país que já não existe, um prémio milionário é dado ao vencedor de um torneio. À hora marcada, centenas de antigos samurais (292, contagem que desce no fim de cada episódio), agora banidos, comparecem apenas para tomar conhecimento de um macabro jogo. Tal como em Squid Game, os organizadores do jogo são misteriosos e as regras claras e cruéis. Os que compareceram e não foram embora enquanto o mestre de cerimónias contava até 28, já não podem desistir.

Ganha a impressionante soma quem for do ponto A (Quioto) ao ponto B (Tóquio), com paragens obrigatórias e a garantia de acabar, com pelo menos 40 pontos. Os pontos são…as vidas dos outros concorrentes, na forma de uma chapa de madeira que cada um usa.

Acompanhamos então a jornada de Shujiro Saga. A cólera chegou a sua casa e já lhe levou a filha. Resta um filho e a mulher e na esperança de que o prémio possa ajudar a família e a sua aldeia, parte rumo ao desafio, levando a sua espada, que já tantos matara e que havia jurado não voltar a usar.

Para os organizadores esta parece ser uma forma de entretenimento que garante o extermínio da maior parte dos samurais. Para o vencedor, pode garantir uma vida confortável, ainda que com mais algumas dezenas de mortes na consciência.

23 de Novembro, 2025

O Sexto Sentido

Livro, 2025

Francisco Chaveiro Reis

Poucas semanas depois de Dan Brown, José Rodrigues dos Santos lança o seu novo livro. Se Brown demorou oito ano para fazer regressar Robert Langdon, o português demorou menos de um ano a trazer uma nova aventura da versão local do académico inventado por Brown. E bem faria ao pivot que demorasse mais tempo a lançar as suas obras. É que mesmo para quem é leitor regular como eu, a vontade de deixar de o ser é cada vez maior e chegar ao fim do volume é um exercício cada vez mais penoso.

Desta vez, Tomás Noronha é obrigado a investigar a morte misteriosa do amigo Kurt Weillman, que caiu de um décimo andar. Os mesmos que assassinaram o norte-americano também andam atrás de Noronha que se vê no meio de uma classe de substâncias terapêuticas com propriedades milagrosas. Se Rodrigues dos Santos consegue dar alguma densidade ao seu protagonista (a sua depressão, a mulher que tem um namorado numa pausa no casamento, a mãe demente), a verdade é que esse esforço de aproximação entre leitor e herói se estilhaça quando vemos o académico cometer proezas atléticas apenas ao alcance do "ninja" com o melhor treino possível, como é caso do misterioso assassino contratado que o persegue pelo mundo. 

Mais uma vez, José Rodrigues dos Santos não escreve bem (há passagens sofríveis) e agora faz publicidade aos seus livros anteriores, chamando-os pelo nome, frequentemente. Em casos felizes, como nos livros sobre Gulbenkian, A Filha do Capitão, Codex 632 ou O Segredo de Espinosa, as falhas do autor são perdoáveis, já que entrega, mastiagada, muita informação interessante. Desta vez, não entregou nada de memóravel.

22 de Novembro, 2025

Mr. Mercedes

Série, 2017-2019

Francisco Chaveiro Reis

Mr. Mercedes, série baseada numa série de livros de Stephen King, acaba de se estrear na Netflix, mesmo que tenha durado apenas entre 2017 e 2019. Aqui, não temos os habituais elementos sobrenaturais da obra de King, antes um detetive reformado que não esqueceu o sentido de dever e muito menos esqueceu um caso que não conseguiu resolver.

É com esse caso que começa a série. Numa madrugada, uma fila de desempregados, à espera da abertura de uma feira de emprego, é atacada por um condutor de um Mercedes, que mata várias pessoas, incluindo uma jovem mãe e o seu bebé.

Reformado, Bill Hodges (Brendan Gleeson) é contactado por Brady (Harry Treadaway), um jovem solitário, que trabalha numa loja de informática, tem uma relação “estranha” com a mãe e quase ninguém a quem possa chamar amigo. Hodges e Brady jogam ao “gato e rato”, primeiro virtualmente e depois, na vida real, com consequências bastante sérias.

20 de Novembro, 2025

Os Donos do Jogo

Série, 2025-?

Francisco Chaveiro Reis

 

Jefferson, conhecido como Profeta, aprendeu tudo o que sabe com Nélio, seu pai adotivo. Seu Nélio gere um café nos arredores do Rio de Janeiro e Profeta foi empregado de mesa, responsável pela grelha e…” bicheiro”. No Brasil, bicheiro é o organizador do jogo do bicho, uma espécie de lotaria informal, muito popular, que faz uns perder muito e, outros, ganhar muito. E é ilegal.

Profeta, com algum dinheiro no bolso e muita ambição ruma ao Rio de Janeiro para se sentar na mesa dos grandes. A Cúpula é a organização que junta os maiores bicheiros. Guerra, agora doente e frágil, era o chefe dos chefes, passando agora o papel para Búfalo, seu genro. Búfalo, antigo lutador, é impulsivo e gosta de resolver tudo com violência. Já Galeno, companheiro de Guerra e da maior parte dos outros da Cúpula há muitos anos, é um chefe oficioso, com mais experiência e saber do que quase todos.

Num mundo dominado por homens, não falta o toque feminino, subtil, mas decisivo. Leila, mulher de Galego, tem os seus próprios planos, que passa por deixar de ser uma mulher trofeu, alvo de traições. As filhas de Guerra, também querem um papel ativo. Se Búfalo é o novo chefe, a sua mulher é imprescindível a definir estratégias. Já Mirna, a mais nova, tem a cabeça certa para o negócio, mas o sexo errado. São elas, Leila e Mirna, que ajudam na ascensão do Profeta, por ele e sobretudo por si.

A ficção brasileira parece estar de boa saúde, mesmo que haja aqui mais de novela de ação do que série. Os Donos do Jogo são uma aposta segura.

19 de Novembro, 2025

A Intrusa

Livro, 2025

Francisco Chaveiro Reis

 

Já se sabe, Freida McFadden é uma escritora altamente produtiva e eu sou um leitor altamente fiel, mesmo com o risco muito sério de a meio de um dos muitos livros da norte-americana, me farta de vez.

Desta vez conhecemos Casey, uma antiga professora de Boston. Farta da vida da cidade, muda-se para uma cabana isolada e renuncia ao seu smartphone e ao uso de internet. Procura uma vida mais simples e solitária. Tem como poucas visitas, o senhorio, sempre mais interessado em galantea-la do que em cumprir com as suas obrigações e um vizinho, um perfeito cavalheiro, mas em que Casey, sem saber porquê, não confia. 

Conhecemos Casey a poucas horas de uma grande tempestade que pode muito bem fazer voar o telhado de sua casa. O senhorio é insensível à questão, apesar de se oferecer para receber a jovem em sua casa. O vizinho vai ver como ela está e também lhe oferece a sua casa, mas Casey decide tentar a sua sorte, sozinha. Pelo menos até perceber que tem uma visita, uma adolescente cheia de sangue, com uma faca em riste, que aceita ser acolhida e alimentada sem que tenha muita vontade de falar ou explicar algo sobre a sua vida.

De repende, a noite começa a perspetivar-se ainda mais longa do que Casey antecipava.

18 de Novembro, 2025

Tó Madeira

Série, 2025

Francisco Chaveiro Reis

Tó Madeira é uma das melhores coisas que podemos ver este ano. São três episódios onde se sorri, ri e até se pode muito bem chorar (apesar de ser ficção).

Nunca joguei CM ou o seu sucessor, FM, mas conheço a fama e o impacto do fenómeno. Por cá, a edição mais célebre é a de 2002, tendo Tó Madeira como figura mítica. O homem do Gouveia era um dos melhores jogadores do jogo e tê-lo na equipa era garantia de sucesso.

Luís Franco Bastos, humorista e fã de futebol, cresceu a jogar CM e a ter Tó Madeira como referência. Além de tudo, é como eu, colecionador de camisolas de futebol. Numa das suas pesquisas por mais uma camisola, na internet, encontrou, como parte de um pacote, uma camisola do Gouveia com o nome de Tó Madeira. E fez um documentário a partir  disso. 

Mas ir atrás de um antigo jogador de uma pequena zona seria fácil. Nem por isso. É que até agora, há a dúvida se Madeira existe ou não. Na altura, a empresa dependia de voluntários para ter acesso aos planteis dos clubes mais pequenos. O homem responsável por enviar a lista dos jogadores do Gouveia resolveu “inventar” um jogador e exagerar nas suas qualidades.

Mais de 20 anos depois, LFB conta com testemunhos de outros amantes do futebol, como Maniche, Sofia Oliveira, Ric Fazeres, Blessing Lumueno ou Luís Freitas Lobo, e vemos uma busca por pistas. Madeira existiu? Quão bom era? Onde está hoje?

Entre o humor habitual de Bastos; o lado feio do jogo e dos seus bastidores, nomeadamente o papel dos empresários na destruição dos sonhos de alguns jogadores e uma parte bastante emocional e surpreendente, Tó Madeira é um triunfo em forma de três episódios online.

17 de Novembro, 2025

Tremenbé

Série, 2025

Francisco Chaveiro Reis

Tremenbé, em exibição na Amazon Prime, conta a história, baseada em factos reiais, da “prisão dos famosos.

Uma prisão onde homens e mulheres, com a devida separação, cumprem pesadas penas, após terem praticado os crimes mais horríveis que possam ser imaginados. No centro desta história, está Suzane von Richthofen (Marina Ruy Barbosa), uma mulher jovem, manipuladora e que planeou a morte dos pais. O seu namorado de então, e o irmão, carrascos dos pais de Suzane estão também em Tremenbé. Daniel (Felipe Simas), ex-namorado, vive numa depressão, preso ao momento do crime, e com tendências suicidas, pelo menos até encontrar uma visitante com fetiche por prisioneiros. Já o irmão, Cristian (Kelner Macêdo), adapta-se bem à nova vida, divertindo-se, sobreudo, com Luka (João Pedro Mariano).

Suzane quer controlar a prisão e a narrativa, através da manipulação. Todos a acham bonita e alem de ter o seu advogado na mão, consegue, aos poucos, a atenção e proteção de Sandrão (Letícia Rodrigues), a pessoa que manda na prisão. Para formar casal com Sandrão, Suzane tem de afastar Elize Matsunaga (Carol Garcia), conhecida e ativa ciumenta. Ganha ainda alguma simpatia ao expor o seu caso via reportagem televisiva.

Mas esta não é apenas uma série sobre jogos palacianos para obter poder na prisão. Conta, como é normal neste tipo de série, com flashbacks do passado, de quando os diversos presos cometerem os seus crimes. Sabemos que quase todos foram justamente presos e muitos por crimes envolvendo crianças ou adolescentes.

Ao melhor estilo de Orange is the new black ou 

14 de Novembro, 2025

Vem aí a quinta

Stranger Things

Francisco Chaveiro Reis

O mês de novembro não acaba sem estrear a derradeira temporada de Stranger Things.

Mais do que uma série ou de sinónimo de Netflix, Stranger Things é um fenómeno global, que alia uma boa velha história de terror a sentimentos como amor e forte amizade, além de ter colocado na moda, os anos 80 (que o diga Katie Bush, que viu novas gerações descobri-la, décadas após ter atingido o pico do seu sucesso). Strangers Things prendeu milhões ao ecrã, criou estrelas e deu nova vida a outras.

O sucesso mede-se também, claro, pelo merchandising. De sets de Lego a ténis Nike, passando por um revivalismo da moda da década de 80, tudo se vende e, eu, não fui imune a esse movimento de marketing.

Millie Bobby Brown, hoje com 21 anos e casada, é 11, aparentemente uma pré-adolescente. Trata-se, no entanto, de alguém com pouco contacto com o mundo real e com extraordinários poderes, que põe ao serviço dos primeiros amigos que faz na vida. São eles, Dustin, Lucas e Mike, em missão para tentar perceber o que aconteceu ao amigo, Will. Will, filho de Joyce (Wynona Ryder) desapareceu, sem deixar grande rasto e está, cedo descobrimos, num mundo paralelo, aprisionado. É esse mal que ameaça apoderar-se da pequena cidade e não parar por aí. Como nos filmes e série de It, o futuro do mundo está nas mãos de um punhado de crianças.

Nas três temporadas seguintes, sem que a qualidade ou o interesse baixasse, mais e mais personagens se juntaram, ficando algumas pelo caminho, enquanto se esperava que o mal voltasse e voltasse.

Agora, daqui a pouco, saberemos como fica tudo. Ou será que não?

13 de Novembro, 2025

Balada de um Pequeno Jogador

Filme, 2025

Francisco Chaveiro Reis

Sou um absoluto admirador das qualidades de Colin Farrell e espanta-me que a sua carreira não seja “melhor”. Não falo de prémios, mas de projetos de maior qualidade. Claro que há o recente Pinguim, estrelado por si, grandes sucessos como Os Espíritos de Inisherin ou até pérolas menos reconhecidas do que deviam, como O Sacrifício do Cervo Sagrado ou O Novo Mundo.

Vejo o seu talento muitas vezes desperdiçado em filmes que não estão à sua altura. É o caso deste novo Balada de um Pequeno Jogador. Aqui, conhecemos Lord Doyle, um britânico a viver em Macau, dedicando-se a perder rios de dinheiro (que não tem) nos casinos locais, além de acumular uma gigantesca dívida no luxuoso hotel onde vive.

Encurralado por uma detive, Blithe (Tilda Swinton), numa feroz perseguição por erros do passado, o Lord só se pode agarrar a Dao Ming (Fala Chen), uma desconhecida que se apresenta como uma solução.

12 de Novembro, 2025

Frankenstein

Filme, 2025

Francisco Chaveiro Reis

 

O mestre Guillermo Del Toro propôs-se a recriar uma das histórias mais conhecidas do mundo da ficção. Frankenstein, publicado há mais de 200 anos (uma primeira versão, anónima, em 1818 e aquela que será , conta a história de um ambicioso estudante de ciências naturais que cria um “monstro”, que abandona, mas que o persegue, sobretudo, com a exigência da criação de uma companheira.

Aqui, Del Toro mostra-se fiel à história, sem deixar de fazer um outro desvio. Temos o encontro na neve, quando um comandante de um navio encalhado encontra e acolhe Victor e o consequente aparecimento do seu perseguidor. O capitão do navio ouve então a versão de Victor e a da sua criatura.

Victor (Oscar Isaac, na versão adulta) conta a história da sua infância abastada, num imenso castelo, com a amada mãe e com as visitas casuais de um pai, mais velho, conceituado médico e quer moldar Victor à sua imagem, pelo menos até nascer o seu irmão e morrer a mãe de ambos. Quando o pai morre e a fortuna se reduz, os irmãos seguem caminhos separados. O de Victor é o de ser estudante, brilhante, mas provocador, capaz de desafiar a morte e de dar vida a homens mortos, retalhando-os e juntando peças, algo mal visto pela academia.

Só um homem acredita na visão de Victor. O antigo cirurgião e agora empresário de sucesso, Harlander (Christoph Waltz), coloca ao dispor de Victor todas as condições para ser bem-sucedido. Harlander é, ainda, tio de Elizabeth, noiva do irmão de Victor, por quem o cientista acaba por se apaixonar perdidamente, acrescentando mais uma camada de drama à história.

Desiludido com a sua criação, com quem começa a ser cruel, abandona-a à sua sorte, pensando que a mataria.

Eis que é a vez da criatura (Jacob Elordi) contar a sua visão e como escapou à morte certa para com, observação de uma família humilde e com a ajuda de um ancião, começa a ganhar vocabulário e consciência de si e do mundo. E é aí que entende que não tem lugar entre os homens e que deve isolar-se, querendo ter uma sua igual como companhia.

Del Toro cria um ambiente gótico, tendo feito de raiz vários cenários (o barco encalhado na neve ou o gigantesco laboratório de Frankenstein), sem recorrer a atalhos tecnológicos e não se coíbe de mostrar, com toda a crueza, os detalhes da pesquisa e criação do monstro, o que envolve retalhar muitos cadáveres, além de rios de sangue serem frequentes. Foram 120 milhões de euros muito bem gastos, num filme que vive de retalhos de uma história bem conhecida e se ergue como uma nova criatura, que é bonita de se admirar.

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