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A Estante

As Minhas Estúpidas Intenções (2023)

15
Abr24

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Bernardo Zannoni nem 30 anos tem ainda e já escreveu um livro premiado, por sinal, o seu primeiro. “As Minhas Estúpidas Intenções” coloca-nos num mundo onde os animais falam e têm profissões. E têm também vidas duras. Como a do próprio Archy, protagonista do livro, um macho de fuinha, coxo. O pai deixou-se matar pelo Homem e a mãe, solitária, vai-se esforçando por cuidar dos filhos, dando-lhes alguma comida e nenhum amor. A mãe vai desprezando cada vez mais os filhos, vendo apenas utilidade no filho mais forte.

Archy acaba por ser vendido como escravo, a troco de uma galinha e meia. Torna-se propriedade de Solomon, um raposo usuário, cruel e caprichoso que tem um grande cão preto como guarda-costas, sempre pronto a travar qualquer comportamento que não agrade ao amo.

À medida que Archy aprende o ofício e sobretudo a lidar com o velho, este, confrontado com a descoberta de Deus e sobretudo com a ideia da morte, começa a ensiná-lo a ler a Bíblia e dar-lhe liberdade para explorar o bosque e fazer alguns negócios em seu nome.

Archy começa a ler e a escrever, para Solomon e depois para si e começa a desejar voltar atrás, a uma vida mais simples. Mas ninguém consegue desaprender aquilo que aprendeu, ainda menos quando o que aprendeu o torna completamente diferente de todos os que o rodeiam.

Um abolsuto e genial OVNI no panorama atual da literatura.

O enviado de Praga (1960)

09
Abr24

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No fim dos anos 50, em Inglaterra, Nicholas Whistler e a sua família vivem do passado. Nicholas preocupa-se mais com guiar o seu MG, mesmo que não tenha dinheiro sequer para pagar a renda, do que com a namorada ou com o trabalho, na fábrica que o pai fundou, agora com nova gerência e muito menos sucesso. A mãe vive num mundo de fantasia, achando que o filho vai dirigir a empresa mais dia menos dia e que o seu irmão, ainda na Checoslováquia, vai deixar a sua pretensa herança ao filho.

É com a desculpa dessa mesma herança, a chegar, que Nicholas é enganado. Chamado a uma sociedade de advogados, recebe duzentas libras de adiantamento. Mas, o tio não morreu e aquela soma, que Nicholas não demora a gastar são uma dívida, que deve pagar com uma ida à Praga da sua infância, para recolher informações. Sem saber muito bem como torna-se numa peça de destaque numa história internacional, em plena Guerra Fria.

 

Vemo-nos em agosto (2024)

04
Abr24

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Há cerca de um mês, dez anos depois da sua morte, aos 87 anos, foi editado um novo e derradeiro livro de Gabriel García Márquez. Vemo-nos em agosto foi escrito quando o autor colombiano já apresentava sinais de demência e como nos é explicado no início do volume da D. Quixote, o livro não era considerado pelo escritor como estando â altura da sua obra. Mas um livro menos bom de Gabo é sempre melhor do que muitos que por aí andam.

Uma mulher casada há quase 30 anos regressa todos os anos, a 16 de agosto, a uma ilha onde a mãe está sepultada. Fica no mesmo hotel, modesto e leva sempre as mesmas flores, gladíolos. Com o passar dos anos, a sua “fuga” anual, que faz questão de ser solitária, serve como forma de fugir da sua realidade de conhecer um novo amante. Uma pequena delícia.

Quentin por Tarantino (2024)

19
Mar24

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Amazing Ameziane (coautor de uma das versões em BD de 1984) ofereceu um grande presente ao mundo. Quentin por Tarantino é um livro colossal, obrigatório para qualquer admirador de Tarantino e para qualquer admirador de cinema. Aqui, Tarantino fala em voz própria, num longo e bonito volume com vários estilos de banda desenhada, ilustração e até texto corrido (com desenhos, claro). Conhecemos a sua infância, a relação com a mãe e com o padrasto e o percurso até triunfar no cinema.

Depois, temos acesso ao que levou à criação de obras-primas como Kill Bill (temos um vislumbre do que seriam os volumes seguintes, já que a ideia seria haver um Kill Bill a cada dez anos) ou Pulp Fiction. Somos brindados com histórias dos bastidores, do processo de seleção dos atores e com milhentos pormenores que mostram Tarantino como um profundo conhecedor do cinema.

Há ainda espaço para abordar polémicas, com toda a transparência e para perceber como QT viveu movimentos sociais como o Mee Too (Harvey Weinstein foi produtor de vários filmes de Tarantino) ou o Black Lives Matter (Tarantino protestou contra a polícia mesmo sendo muitas vezes acusado de ter falas e personagens racistas nos seus filmes).

Quentin por Tarantino é um livro obrigatório. Obrigado, Amazing Ameziane.

A Árvore Despida (2024)

06
Mar24

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Depois d´A Espera, volto ao traço de Keum Suk Gendry-Kim, sul coreana radicada em França. Desta vez, a autora adapta uma obra clássica do seu país, acerca de um amor proibido. Na Seul da Guerra das Coreias, cheia de soldados americanos, a jovem Kyung, já sem pai nem irmãos e apenas com a companhia da mãe, atende os estrangeiros que mandam pintar em baratos lenços locais, retratos das suas namoradas. Cabe a Kyung distribuir o trabalho pelos pintores, que ganham por retrato na esperança de juntar o suficiente para comer. Um dia, junta-se a eles Ok, vindo da Coreia da Norte e com pergaminhos de verdadeiro pintor. Mesmo tendo mulher e filhos, a jovem não consegue não se apaixonar por aquele homem misterioso, nascendo uma relação platónica que os ajuda, aos dois, a sobreviver a tempos tão duros.

A Metamorfose (1915)

06
Fev24

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Clássico da literatura mundial, A Metamorfose (Frank Kafka, 1883-1924), conta uma história absurda, mas cheia de significado. Um jovem caixeiro viajante, que abandonou os seus planos de vida para trabalhar para o impiedoso homem a quem os pais devem dinheiro, acorda um dia, transformando num inseto gigante, semelhante a uma barata. Com mais receio de perder o comboio e as entregas do dia do que da sua situação, Gregor, acaba por se conformar a ficar em casa, sobretudo quando vê a reação da família à sua nova forma. Gregor vai vivendo na sua nova forma provocando medo, aceitação, vergonha e até repúdio na sua família. 

A Morte de Ivan Ilitch (1886)

16
Jan24

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Publicado cerca de 100 anos antes de eu nascer, é uma pena que só agora, quase aos 40 anos, tenha lido o pequeno (fisicamente) livro de Liev Tolstói. Li uma edição de 2008, com prefácio de António Lobo Antunes – “Este livro tão breve, uma das maiores obras-primas do espírito humano, tem sido, desde a sua publicação, um motivo de controvérsia para a crítica: trata-se de uma obra sobre a morte ou de uma obra que nega a morte?”.

Aqui, um dos maiores escritores de sempre conta a história de Ivan Ilitch, juiz de relevo, começando pelo fim e como os seus conhecidos sabem da notícia da sua morte e acorrem a sua casa para prestar a sua homenagem à viúva. Depois do velório, ficamos a conhecer a vida de Ivan, nascido numa família com posses, ganhas graças a posições mais ou menos vazias em organismos públicos, uma vida que Ivan, mesmo que competente, segue. Depois de cargos menores, com dinheiro contado e de várias zangas com a mulher, é finalmente colocado numa nova cidade com um salário que lhe permite ter uma vida confortável.

Vai à frente para preparar a nova vida. Arranja uma casa e decora-a, tomando atenção a todos os pormenores. Quando dá instruções de como colocar um cortinado da melhor forma, cai e magoa-se na zona do rim. Uma incomoda nódoa negra acompanha-o, sem que ele lhe ligue até perceber que ela não desaparece. A estranha lesão muda-lhe a vida e faz com que cada vez mais se mantenha em casa. Começa uma batalha interior. Morrer acaba-lhe com o sofrimento, mas Ivan quer também a vida. E, claro, através dele, os outros personagens e nós, pensamos também no sentido da existência.

Nem me atrevo a classificar uma obra assim, imortal.

A Vegetariana (2013)

08
Jan24

Design sem nome (1).pngDe um dia para o outro, Yeonghye, após violentos sonhos que envolvem a morte de animais, decide deixar de comer ou cozinhar carne. Com efeito, ela que pelo menos na cozinha, fazia as delícias do marido, deita fora toda a carne disponível em casa e nunca mais faz um prato de carne. Mais, deixa de tocar no marido, acusando-o de cheirar a carne mesmo após tomar banho. O marido que a escolheu pela sua banalidade, para não destoar da sua vida já de si sem interesse, não sabe como lidar com a nova personalidade da mulher, que se isola cada vez mais do mundo.

Original, onírico e absolutamente único A Vegetariana venceu o Booker Prize tornando-se depois disso um sucesso mundial, incluindo na Coreia do Sul de onde é originária a sua autora, Han Kang.

Não me Esqueças (2023)

06
Jan24

Design sem nome.pngClémence é uma jovem adulta que estuda teatro em Bruxelas. Quando vê como a avó, com quem passou longas horas ao crescer, é infeliz no lar onde vive e foge com frequência, resolve intervir, sem a sua mãe saber e leva a avó numa road trip, que pensa poder ajudar a curar a sua demência. 60 anos depois, a avó vai ver a sua casa de meninice.

Pelo caminho, os desafios são mais do que muitos – falta de dinheiro, falta de lugar onde dormir, uma amante fugaz com mãos leves, um batoteiro local que não gosta de perder e até um acidente – mas parecem apenas aproximar avó e neta, mesma que a primeira nem sempre se lembre de quem a acompanha ou saiba situar-se no espaço e tempo. E a viagem serve também para Clémence dar mais valor à mãe, a quem parece julgar demasiado.

Não havia melhor forma de começar o ano, em termos de bandas desenhadas. Excelente história e traço da belga Alix Garin.

Um Golpe no Céu (2023)

04
Jan24

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A norte-americana Jeanine Cummins ganhou fama mundial, bem merecida, com Terra Americana, um livro cru sobre uma mãe e um filho que numa tarde perdem a família e a casa se vêm obrigados a fugir do seu México natal rumo aos EUA, numa poderosa narrativa sobre o narcotráfico e sobre a emigração ilegal.

No verão do ano passado foi editado em Portugal, Um Golpe no Céu. Aqui Cummins conta a história de um crime real que aconteceu…na sua família. Usando a terceira pessoa, a própria autora é uma personagem, ainda que secundária. Em 1991, Tom, irmão mais velho da autora e duas primas – Julie e Robin – são atacados numa ponte sobre o Mississípi, horas antes de se separarem, já que as férias estavam a acabar e Tom, os pais e a duas irmãs regressariam no dia seguinte a Washington. Só Tom sobrevive ao brutal ataque e o que se segue é um novo ataque, da polícia (que quer fazer dele culpado) e mediático ao mesmo tempo que Tom e toda a família tenta fazer o seu luto.

Cummins tenta mostrar como aquela noite mudou a família para sempre. Um relato brutal.